Critérios para pegar pessoas

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Já tive critérios muito estranhos para me sentir atraído por alguém a ponto de imaginar toda uma historia a partir dali. Dois deles se destacavam: pessoas que comem maçã em público e quem usa verde. Algo que nunca consegui entender bem porquê mais me deixavam de olhos vibrantes.

Ouvi dizer que Carlos Drummond de Andrade comeu poucas vezes fora de casa. Ele considerava o ato de comer muito obsceno para ser feito na frente dos outros. Pelo contrário, quando via alguém comer maçã assim no meio da rua, sentia uma sensação de liberdade em quem empunhava o fruto nas mãos e roçava com os dentes sua textura firme. Bom deixar claro que o mesmo não se aplicava à variedade argentina, mais fofa que suas colegas.

As roupas verdes, por sua vez, nunca tiveram nenhuma explicação. Talvez alguma energia ou algo ligado a infância, que a psicanálise poderia esclarecer. Hoje, por ter chegado a conclusão que esses fatores não melhoram ou pioram relações, ou mesmo por falta de opções, aprecio o gênero pessoas, que têm mais variedades, texturas e cores a experimentar.

P.S: Sei que é anti-ético, mas tem um amigo meu que tem como critérios de atração: o estrabismo e a falha entre os dentes. Nada contra

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Música estranha

Muita gente diz que não tem paciência, outros simplesmente ignoram. Mas juro que não existe música capaz de me agradar e causar estranheza ao mesmo tempo como Sigur Rós. Me sinto no meio de uma floresta islandesa, mesmo sem ter a mínima idéia se existe de fato uma floresta entre geisers e gelo. Abaixo a gravação de “Ara Batur”, música do álbum mais recente do grupo, que não vem ao caso escrever, porque o nome é muito difícil.

P.S: a abertura é tosquinha, mas o resto vale.

Leitura privada

Marcel Duchamp

Algum mestrando em Letras ou Educação podia se aventurar a estu-dar a relação do vaso sanitário com a leitura. Eu me ofereço pra ser objeto da pesquisa. Hoje, estava lendo um texto difícil enquanto me desfazia de coisas que passaram por mim, quando lembrei de como tudo começou. Eu era criança e sofria de intestino preso, cheguei até a ser encaminhado pro hospital uma vez porque nada descia. Foi aí que algum médico disse a minha mãe que eu ficava muito nervoso nessas horas e que uma maneira de relaxar seria ler no banheiro.

Comecei com historinhas em quadrinhos: Turma da Mônica, Zé Carioca, O Menino Maluquinho, mas tinha alguma dificuldade em ler Urtigão nessas horas. Obviamente que me viciei em leitura e a hora da necessidade passou a ser bem mais prazerosa. Tempos depois, fui me enveredando pelos livros “sem figura”, que me deixavam com pose de gente grande no trono, coisas como Pedro Bandeira, Marcos Rey, entre outros clássicos da coleção Vaga-Lume. Nesse ponto já estava perdido de amores pelos livros e estendia a leitura para o quarto. Daí em diante tive várias “fases”, Agatha Christie, Luis Fernando Veríssimo, Lygia Fagundes Telles, Gabriel Garcia Marquez, Carlos Drummond de Andrade, Ìtalo Calvino… Isso sem contar os teóricos que passei a estudar na faculdade, também obrigados a me acompanhar nessa hora tão delicada.

Foi assim que a leitura passou a fazer parte da minha vida, e colaborou não só com a imaginação, mas também em funções menos nobres do corpo humano.

Como ser detestável no orkut

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Já fugi pro Twitter faz um tempo, mas ainda mantenho minha conta no Orkut como instrumento de investigação da vida alheia. Em muitas coisas o site de relacionamentos* Orkut me irrita. Segue o top 5 delas, que peço a vocês queridos, que não repitam:

1 – “Só passei para dizer um oi”, não me deixe esse recado. Aproveita que tá passando e segue reto, um oi não me faz feliz.

2 – Nomes começados em símbolos: *Aninha&JesusMEama, £udmilla, entre outras aberrações. Faz favor, né?

3 – Depoimento com corrente de santo. Primeiro porque você vai todo animado achando que alguém te ama de verdade. Segundo porque corrente não dá certo nem com carta, imagina se o santo vai baixar na internet.

4 – Recados com cachorrinhos/ursinhos/anjinhos que brilham. Detesto quem ainda tem conceito de estética baseado no Xou da Xuxa.

5 – Foto de ladinho, fenômeno que se estende para flickr, picasa e outras coisas de pôr foto. O álbum é formatura? Lá estão as meninas enfileiradas, com cabelo chapinha, uma encoxando a outra. Pra completar, algumas recortam só a sua carinha e põem no perfil. Se algum homem faz isso, prefiro guardar os comentários.

*nome fantasia dado ao Orkut pela Rede Globo

Relendo os clássicos

Daí que li que o J.D.Salinger vai processar um tal de J.D Califórnia porque o último inventou de escrever a continuação de “O apanhador no campo de centeio”. A nova história se passa 60 anos depois, quando Holden Caulfield sai de um asilo e vai caminhar pelas ruas de Nova York.

Imagino o que não deve passar pela cabeça do Salinger ao ver que um cara meteu a mão em sua obra pra escrever uma continuação. Releituras de obras-primas existem aos montes por aí, vide as versões de “Dom Casmurro”, mas nenhum dos autores passou a se chamar Machado de Pádua ou coisa parecida.

Realiza se pega essa ideia? Eu me candidato a escrever “Duzentos anos de solidão”, com a descoberta de células-tronco congeladas da família Buendía, que traria para a terra uma nova geração dos macondenses.

Fica a dica pra quem quiser escrever “Memórias reencarnadas de Brás Cubas”, “O amor nos tempos da gripe suína”, “Ensaio sobre a cegueira – A cura” e “O flickr de Dorian Gray”.

Happiness, where are you?

À despeito de crises, quedas de aviões, gripes e outras tragédias do cotidiano, tenho notado que todo mundo anda bastante infeliz. Há necessidade geral de amar, pelo menos é o que dizem, mas ninguém se dispõe a arriscar. É mais fácil destilar amargura sozinho a dar o braço a torcer de que precisamos do outro.

Descobri há pouco tempo o cinema de Todd Solondz, crítico ácido da sociedade americana, que de uma forma ou de outra a gente reproduz por aqui. Vi três filmes seus em sequência: Felicidade, Histórias Proibidas e Bem-vindo à casa de bonecas. Todos apresentam personagens em busca de solução para suas vidas medíocres ou mesmo doentias. Nada dá certo, entretanto. Os personagens são confrontados uns com os outros e as soluções ficam a quilômetros de distância. Sobra no fim a sensação de  que nada mesmo tem jeito. Resta guardar os mortos na geladeira ou gozar na parede para colar cartões postais.